Wednesday, September 20, 2006

A santica do Codilho

(Van Gogh)


Nós éramos, por tradição, "Judeus", apesar da familia da minha mãe se dedicar a agricultura, o que os classificaria como "Cabrões". O meu avô era sapateiro. O ofício de sapateiro era uma arte de família, passada de geração em geração, que ele também tentou transmitir aos filhos. O tio Albino em Santulhão e o meu pai em Carção exerciam a profissão, remendando sapatos ou fazendo botas, sapatos e sandálias. A mesa do ofício era uma banca tosca repleta de ferramentas, moldes de couro, pregos, brochas de diversos tamanhos, pez, graxa, sobelas, atilhos, linha espessa e encerada.
À volta da mesa distribuíam-se os moldes de madeira em variados tamanhos e os diversos materiais, solas de borracha já prontas a ser usadas ou couro rijo e espesso onde se colocava o molde e cortava o tamanho adequado da planta do pé, cabedal curtido, mais fino para a parte superior, em preto ou castanho para responder aos gostos dos fregueses.
A linha vinha em novelos com uma figurinha sobre um fundo vermelho num dos lados à qual o meu pai chamava a “Santica do Codilho” e que servia de paga para as mais variadas tarefas. Quando ele precisava de alguma coisa dizia, vai lá chamar sicrano que eu guardo-te a santica do codilho. Não sei qual a importância da figurinha, porque era tão essencial obtê-la ou mesmo para que a usava. O facto de o meu pai ser o único sapateiro e consequentemente eu a única a poder obter tão precioso bem, pode ser uma explicação. Quando obtinha uma santica guardava-a religiosamente e exibia-as com satisfação e orgulho antes de se perder nos bolsos das calças na lavagem seguinte.

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18 Comments:

Anonymous JMC said...

História curiosa, contada com ligeireza e simplicidade, acções de um passado, que dessa forma não volta mais, agora há os calçados minuto (em cada esquina, bairro, estação de Metro ou centro comercial), que enquanto fumamos um cigarro, desde solas a saltos e ainda a respectiva engraixadela fica tudo pronto, perdendo-se portanto aquele convivio com o artesão.

JMC

2:34 PM  
Blogger Santa said...

Querida amiga,
Os tempos de hoje nos fazem indiferentes aos significados de ontem.
Bjs

3:06 PM  
Blogger Rossalina said...

Na infância as coisas mais simples poden ser um maravilhoso tesouro. Oxalá nunca avesse-mos perdido essa inocência.
Bjkos.

3:08 PM  
Blogger Pé de Salsa said...

Interessante e bonita história, Rosário.
Quando se tem pouco, damos mais valor a tudo e a quase nada. Até a "Santica do Codilho" tinha um valor extraordinário e servia como "meio de pagamento".
Não sei se andas a fazer isso mas seria muito interessante compilares num livro todas essas pequenas histórias. Uma forma de resgatar histórias da vida que não se repetirão.

um bjico ancho.

3:15 PM  
Blogger Barão da Tróia II said...

História bonita essa.

3:54 PM  
Blogger casimiroloupa said...

e um dia as santicas voltarão aos nossos dias

4:04 PM  
Blogger greentea said...

uma tia minha, senhora j´´a da sua idade ao tempo fumava cigarros tres vintes, uns pacotes amarelo vivo com umas folhas verdes e tres XXX a preto. comos maços vazios fazia dobragens e desenhos com que eu adorava brincar...

depois a Tia desapareceu, e os cigarros tres vintes tamb´´em...
bjinhos

7:16 PM  
Blogger firmina12 said...

a rosário faz-me uns comentários tão bons de se receber, obrigada

12:11 AM  
Anonymous Anonymous said...

Andei à procura do teu email, mas nao o encontrei por nenhuma parte. Por isso escrevo-te aqui. Parabéns pelas fotos, especialmente as de natureza, as do castelo de Silves e as de Tenerife. Visitarei com frecuencia a tua galeria de fotos...por certo, somos velhos conhecidos da aldeia!

12:22 AM  
Blogger Pedro Jerónimo said...

Andei à procura do teu email, mas nao o encontrei por nenhuma parte. Por isso escrevo-te aqui. Parabéns pelas fotos, especialmente as de natureza, as do castelo de Silves e as de Tenerife. Visitarei com frecuencia a tua galeria de fotos...por certo, somos velhos conhecidos da aldeia!

12:23 AM  
Blogger Mac Adriano said...

Interessante. Muito se aprende neste texto sobre o que costumava ser a vida real. Abracicos.

1:28 AM  
Blogger Freeman said...

Just a short note to say hello and see how are you doing?
Nedless to say that visiting your blog is always inspiring...
kiss

2:44 AM  
Blogger sabr said...

Fascinante. Sério. Gostei mesmo. Bom dia, bjiku.

11:22 AM  
Blogger o alquimista said...

Olá amiga, espero que ainda estejam guardados os utensilios de tão nobre arte...lembra-me da minha mãe ir ao sapateiro por meis solas e protectores, que causavam algumas escorregadelas...

Doce beijo

11:27 AM  
Anonymous Ana Amorim said...

O meu avô paterno era sapateiro e eu adorava esfregar os sapatos com o pano de flanela para acabar de lhe dar o "lustre". Isto tudo porque ele tinha uma paciência enorme comigo, quando eu já não estava interessada ele acabava os ultimos retoques.
Gostei desta história.

Um grande beijo
Ana Amorim

11:34 AM  
Blogger Tom, um ser diferente... said...

Que riqueza Rosário.
Bela história que serve para contar aos seguintes.
Adorei!
Desculpe minha ausência. Tenho andado muito atarefado e sem tempo pra nada.
Mas estou sempre aqui quando posso. Meu carinho por você é ENORME!
Um beijo no coração.
Tom
Ah! Conseguir postar o vídeo do Encontro de Culturas Latino Americana... Vai lá conferir!

2:07 PM  
Blogger Platero said...

Estas histórias são contadas de um modo que nos faz estar em cena e visualizar todo o desenvolvimento.

Muitissimo bom!

Umabraço

2:19 PM  
Blogger TMara said...

meus pais alugavam casa na praia smp a mesma. O proprietário - sr. Rogério - era sapateiro e exercia a profissão no vão das escadas (casa de dois pisos).
Na infãncia e adolescência passava todas as horas k não estava na praia falando com o sr, Rogério e encantando-me com a tecnica e os materiais usados na arte k exercia.
Bons e ricos mmts k mtºme fascinaram e enriqueceram.
mmts k guardo e acarinho.
Bom f.s.
Bjs.
Luz e paz

1:35 PM  

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