Monday, February 13, 2006

O Entrudo

A época mais divertida na escola era o Entrudo. Os preparativos começavam muito antes, nos Trabalhos Manuais fazíamos chapéus de cartolina, de forma cónica, no qual desenhávamos imagens coloridas e enfeitávamos com fitinhas na extremidade. Fazíamos as máscaras de cartolina também, a partir de moldes usados anos após anos, uma cara de cão ou de gato, mais ou menos pomposa conforme as capacidades artísticas de cada um. Os mais sortudos exibiam com orgulho umas máscaras de plastico, muito garridas, compradas normalmente na feira.
Muito antes do Entrudo dava-se a volta à aldeia à procura do peru mais rechonchudo e com as faces mais vermelhas onde se adivinhava a valentia. A procura e as negociações eram demoradas e mantidas no mais absoluto sigilo para que as classes concorrentes não suspeitassem do achado e tentassem por meio de oferta superior ou por causa de parentesco afastado minar o negócio. Os alunos de cada classe contribuíam conforme as suas posses e estica de uma lado estica de outro lá se conseguia atingir a quantia pedida pelo vendedor e finalmente o negócio lá se realizava.
Na semana anterior ao Entrudo construíamos, com pompa e circunstância, o andor em que o galináceo iria ser levado em cortejo. Uma caixa de madeira, onde as sardinhas vinham da lota, servia de base. Quatro ripas fortes, pregadas solidamente nos cantos serviriam para levar ao ombro todo o aparato. A partir da base, deixando na frente uma abertura, erguiam-se mais umas ripas que se rematavam com um tecto do mesmo material. Esta estrutura era então cuidadosamente preenchida com hera e finalmente enfeitada com fitas de papel colorido.
No dia marcado, cada classe transportava ruidosamente o seu perú entre vivas ao professor, gritos e cânticos de alegria, lengalengas alusivas ao Entrudo e as festividades e ameaças veladas à ave:
Ó peru da crista roma
poca sorte foi a tua
A barriga da minha mestra
Vai ser a tua sepultura.
O objectivo era oferecer ao respectivo professor o melhor perú da aldeia, não só superior em estatura, mas também em valentia. Para demonstrar esta última característica, a procissão dirigia-se a um terreiro onde os pobres animais eram instigados uns contra os outros. Depois da luta, o peru vencedor era considerado um herói e lavado em cortejo pela aldeia para mostrar a todos a valentia da ave e a verdade consequente e absoluta de que o professor da classe era o melhor do mundo.
Oferecia-se então o animal glorioso ao mestre e a partir daí a sua sorte era a ele que pertencia. Nunca se ouviu dizer que a carreira nos ringues se tenha prolongado...

5 Comments:

Blogger Rosario Andrade said...

Tiu pirata burmeilho,
Infelizmente acho que esta tradicao ja nao se mantem. Creio que actualmente so dois ou tres miudos frequantam a escola. Alias é uma das escolas que consta da lista do Ministério para ser encerrada por falta de alunos...

Abracicos!

12:12 PM  
Blogger Inha said...

Já me ri à fartota contigo, amiga!LOOOOOOOOOOL

Nós no minho, fazíamos o "Ano Velho".:D:D:D

Uma carrela em madeira, o gajo menos pesado ia em cima com uma vestimenta miserável e a cara negra de carvão. A "peça" era levada a quatro ombros seguida duma procissão de fieis, onde se destacava um (o mais desavergonhado), que se encarregava de bater às portas e exigir a respectiva "congra" a troco duma cantilena que consistia no seguinte:
"E bota o ano belho fora
E bota o nobo cá pa dentro"
Lá Lá Lá Lá
Lá Lá Lá Lá
Lá Lá Lá Lá"

Lindo, portanto...

Já me puseste bem disposta.
Uma excelente semana para ti.

BeijInha


OLá Pirata!;)

12:32 PM  
Blogger Cadelinha Lésse said...

Miúda!
Tens desafio no Vida de Cão... fico à espera!


Abracico

3:37 PM  
Blogger SoNosCredita said...

oi :)
deixei um desafio no meu bloguito!

10:21 PM  
Blogger porfirio said...

boa noite.

muito interessante essa celebração do Entrudo... original e com fundamento. ainda se realiza essa tradição? espero que sim e pra todo o sempre.

...comungar o eleito...

bjo

12:15 AM  

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