Monday, December 19, 2005

Fumeiro: As alheiras

Depois da matança do porco começava a azáfama de fazer o fumeiro. O pior eram as alheiras. Os preparativos começavam no dia anterior, partia-se o pão em fatias muito finas para uma caldeira enorme de cobre, descascavam-se inúmeras cabeças de alho. As tripas, depois de lavadas, eram cortadas em pedaços de vinte e cinco a trinta centímetros e atadas numa das extremidades.
No dia marcado, muito cedo, era necessário cozer as diferentes carnes, porco, vitela, galinha, pato. Era tudo feito ao lume, usava-se um pote de ferro tradicional, enorme e que só era usado para este efeito. Apesar do tamanho descomunal, a quantidade de carnes era tão grande que eram necessárias várias rodadas para a cozer toda. O caldo resultante, perfumado com ervas e alhos, era forte, oloroso e de um sabor intenso e aveludado.
De seguida desfiavam-se convenientemente as carnes. Esta operação demorava longas horas. Com o caldo fervente amolecia-se o pão, adicionavam-se os alhos moídos, a carne, o azeite quente (algumas pessoas usavam também banha derretida, mas lá em casa gostavamos da opção relativamente mais saudável) e o colorau. Assim se obtinha uma massa untuosa, alaranjada e fumegante.
Procedia-se então ao processo moroso de transferir a massa para o interior das tripas. Para esse efeito usava-se uma fulineira, um utensílio metálico em forma de funil. Introduzia-se a extremidade mais estreita na abertura da tripa, e pela outra empurrava-se a massa até que a alheira surgia corada e arrebitada. Atava-se a abertura com o fio que sobrava da outra extremidade e pronto, ja estava...
Depois restava lavar as alheiras e içá-las ao tecto da cozinha, onde ficariam por alguns dias a secarem por acção do calor e do fumo da lareira.

23 Comments:

Blogger frog said...

Do modo como descreves-te a feitura delas até pareçe fácil...até já me está a crescer áuga na boca...bou-me a assar ua lentamente a ber se não se escarrafola e a cumê-la cumas coibicas.

Bô dia

10:18 AM  
Blogger Maria said...

Este post desperta em nós o "pecadilho" da gula ...

10:19 AM  
Blogger João Ferreira Dias said...

é sempre qd estou a tomar o peq. almoço k vêm estes posts...irra...lol.

10:27 AM  
Anonymous JMC said...

Eh Eh, já sei o que é que vou almoçar hoje, aqui em lisboa, nos restaurantes, a alheira é sempre de Mirandela (duvido), porque já as comi, lá e cá tambem, e fazem realmente muita diferença em relação às de outros locais.
Bom apetite.
Boa semana.
JMC

10:27 AM  
Blogger O Micróbio said...

Não percebi as insinuações que fizeste sobre "micróbios" que deixaste espalhadas por aí num blog...

10:28 AM  
Blogger Dinada said...

Ai as saudades, Rosário!
Certo?

Beijico e boa semana!

10:53 AM  
Blogger lobices said...

...venho agradecer e retribuir a amável visita...
Feliz Natal
beijo
quim

11:09 AM  
Blogger greentea said...

Na "minha" aldeia não fazem as alheiras mas as farinheiras , morcelas e os outros enchidos deliciosos. O procedimento é identico .
Mas comer um farinheiro como se lá diz ou uma morcela com uma couves acabadas de apanhar na horta nada mas nada tem a ver com os enchidos que por aí grassam nos hipers e até mesmo nas boas charcutarias - nem sequer o s compro !
E na proxima 6ª f já lá estou, à lareira ou na horta ou a apanhar castanhas se ainda as houver...

11:25 AM  
Blogger pirata vermelho said...

FROG!
fale-s’ essa lhéngua mirandesa quié lhéngua de sons tan bariados i
chena de proua!

12:26 PM  
Blogger Rosario Andrade said...

Pirata,
Bravissimo! Estou a ver que te tens empenhado "cula lhéngua"! Mui curgidoso!

Abracicos!

12:33 PM  
Anonymous Maria do Céu Costa said...

Mesmo a calhar, aproxima-se a hora do almoço, e que tal uma saborosa alheira. Pode ser de Mirandela. Curioso este texto. Bom inicio de semana. Beijinhos.

12:51 PM  
Blogger TR said...

sou adepta das alheiras e das farinheiras e enchidos em geral. Tenho um pequeno problema que me proíbe de os comer, mas eu como-os à mesma de quando em quando.... Gostei da receita. Gosto muito o resultado da receita e já me imagino à volta da alheira com um belo copo de vinho tinto... OK, hoje não, ok, amanhã...!!??, com o trabalho acumulado que tenho, amanhã também não.... que desgraça...LOL!!

1:11 PM  
Blogger sonia r. said...

É mais do tipo para o PR. Mas a esse deu-lhe o badagaio. São tudo saudades, Rosário? Boa tarde. Com ou sem magníficas alheiras, bjinhos.

2:01 PM  
Blogger Platero said...

Alheiras de Mirandela com um belo dum ovo estrelado e com uns grelos salteados na frigideira... huuuummmm!!

PS.Não deves ter muitas destas por aí onde estás!

Um abraço

4:06 PM  
Blogger Silvio Vasconcellos said...

E então aqui me deparo com a distância que se fez de Portugal. Vasconcellos que sou, oriundo dessas terras fico a me perguntar: O que é isso?? Me parece ao que chamamos no sul do Brasil por linguiça...

5:43 PM  
Anonymous rps said...

A esse trabalho nunca assisti. Mas tinho umas noções que agora reforço.
Gastronomicamente, alheiras e enchidos em geral são uma perdição.

5:47 PM  
Blogger mixtu said...

saudades da matança, eu comia logo a moleja.

6:20 PM  
Blogger Lata Mágica said...

Rosário, preparamos um post especial de Natal.Agradecemos a força que deu!!Feliz Natal.

7:49 PM  
Blogger porfirio said...

ora aí está um assunto que me interessa!

bjos

8:27 PM  
Blogger Elipse said...

Só a descrição consegue estragar-nos a dieta. Humm e humm...

9:31 PM  
Blogger Miguel said...

Hum, parecem muito apetitosas!

Festas Felizes!

Bjks da Matilde

PS: Cuidado com o Colestrol!

11:14 AM  
Blogger hfm said...

Ficou cá dentro o gosto acre da memória. Minha mãe era transmontana e em Lisboa fazia 3 vezes por ano alheiras pelo que tinha a chaminé da cozinha preparada para elas. Ainda me lembro de as encher. Obrigada.

11:46 AM  
Blogger sem cantigas said...

adoro! e gostava de fazer para pôr as carnes q gosto em vez doa nacos de gordura com pelos q aparecem!

1:35 AM  

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