Tuesday, November 08, 2005

Castanhas

Apanhava-se a castanha já sob um céu adverso e incerto. Nós tínhamos dois castanheiros, no Vale. As árvores eram enormes, ninguém se atrevia a subir aos ramos. Os ouriços secos, com o ventre aberto e os frutos expostos, tombavam naturalmente pela acção do vento. Apanhavam-se então as castanhas por entre os espinhos e o frio.
Por vezes fazia-se uma fogueira e coziam-se alguns frutos numa lata velha, para recuperar do esforço e aquecer os ossos fustigados pelos dedos galados do Inverno.
As castanhas mantinham-se comestiveis durante muitos meses se acondicionadas em determinadas condições. Eram consumidas durante todo o Inverno.
Assavam-se num assador de ferro, pendurado directamente sobre as chamas. Os frutos fumegavam ao principio, lambidos pelas chamas, a casca tornava-se negra e fendia-se expondo o miolo branco. Por vezes a pressao dentro da pele externa era tao grande que as castanhas explodiam e espalhavam-se em redor em monticulos de massa disforme. A falta de assador, podia-se também enterrar as castanhas nas brasas, depois de se lhes aplicar um corte lateral para evitar o efeito de bomba.
Os bulhós, nome dado as castanhas assadas, depois de libertadas da casca, eram consumidos normalmente com gerupiga, pela noite dentro, a lareira para ajudar a passar os seroes. Muitas pessoas apreciavam também castanhas cozidas com sal.
Alem de serem consumidas pelas pessoas, as castanhas eram também usadas par alimentar os animais, os porcos, as galinhas e os perús. Lembro-me de passar horas a martelar castanhas com um instrumento de medeira de modo a desfaze-las convenientemente para dar a passarada.
O mes de Maio era por regra o último mes em que se comiam castanhas, as Maias. Nesta altura, o fruto tinha perdido o seu vigor, apresentava-se mirrado dentro da casca e o sabor era mais concentrado e adocicado. Mas aparentemente dava boa sorte comer as Maias e os vizinhos que tinham conseguido manter os frutos até essa altura dividiam com os restantes a prosperidade e a boa sorte prometidas pelo consumo do fruto.

15 Comments:

Blogger Kraak/Peixinho said...

Que saudades de Trás-os-Montes. Este post permitiu-me recuar um pouco no tempo :)

Hugzz

3:17 PM  
Anonymous rps said...

As minhas memórias de castanhas são urbanas: aquele fumo e o cheiro a sair dos carrinhos nas esquinas. Tenho passado por um regularmente, na esquina da Júlio Dinis com a Rotunda. Mas não comprei porque, sinceramente: como, mas não sou apreciador.

3:28 PM  
Blogger Angela said...

O que tu nos ensinas, com as tuas memórias. :)

3:34 PM  
Blogger Mendes Ferreira said...

O B R I G A D O. bjos.

3:55 PM  
Blogger Elipse said...

Gosto tanto de ler as tuas memórias!
Nunca tive "terra", porque sou da cidade e estes relatos sempre me encantaram e me causaram uma inveja muito grande.
Beijo grato.

5:06 PM  
Blogger chapa said...

Passei por aqui e gostei particularmente da "tua" galeria. Parabéns.

5:17 PM  
Blogger frog said...

Bô tarde Rosário

Num ma digas que anderam nos MEUS castanheiros ó cimo do lameiro do Bale....eheheh quando lá ia só dava para o REBUSCO

5:18 PM  
Blogger Rosario Andrade said...

Ola Frog!
Os dois castanheiros ficavam por ai, sim. Mas eu deixava mais do que apanhava... por um lado era muito friorenta e demorava-me pouco. Por outro nao tinha muita força, por isso apanhava so o que podia carregar para casa. A minha mãe é que tinha de la ir cada segundo dia...

Abracicos!

6:05 PM  
Blogger frog said...

Estás desculpada...prontos...num se faila mais dicho..eheheh

Abracicos

6:24 PM  
Blogger papagaio said...

eu ja tive um castanheiro ..ai as recordaçoessssss

8:43 PM  
Blogger Eremita Baptista said...

as castanhas e o Outono são mágicos...bjs...é verdade pk o Convento ñ faz parte dos links?

10:08 PM  
Blogger adesenhar said...

toma lá esta do Carlos do Carmo para animar o Verão de S. Martinho :)

Na Praça da Figueira,
ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ele arde.
Ao canto do Outono,à esquina do Inverno,
o homem das castanhas é eterno.
Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.

É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.
Um carro que se empurra,
um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.
Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.
Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor p'ra casa.

A mágoa que transporta a miséria ambulante,
passeia na cidade o dia inteiro.
É como se empurrasse o Outono diante;
é como se empurrasse o nevoeiro.
Quem sabe a desventura do seu fado?
Quem olha para o homem das castanhas?
Nunca ninguém pensou que ali ao lado
ardem no fogareiro dores tamanhas.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p'ra casa.

hummmm cheirinho agradável :)
bjks

12:24 AM  
Blogger GNM said...

Vivendo e aprendendo!

O teu texto está muito bem escrito...

Abracios LOL

1:26 AM  
Blogger Santa said...

Lindo seu texto!

Sou do sul do Brasil, embora more atualmente no nordeste, regiões distantes, de culturas e climas, praticamente distintos...Na infância, lembro de castanhas cozidas e aqui no calor de 30 graus, descubro bombom de castanha do Pará, com chocolate. Os prazeres não diferem.

Um abraço.

1:46 AM  
Blogger Maria Heli said...

gostei do teu texto...confunde-se com as minhas memórias sazonais...e isso foi bom.
bjo

4:26 PM  

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