Monday, August 15, 2005

A televisao

A nossa televisão foi uma das primeiras na aldeia, ainda na casa velha. A primeira foi comprada pelo Tio Alberto que tinha um café. Foi uma sensação! Disseram ao meu avo, olhe tio coiso, o tio Alberto tem uma caixa onde se ve gente e tudo. Pois como pode ser? que Deus não me mate sem ver uma coisa dessas. Mas matou. Morreu sem ver a tal de caixa magica.
Os meus pais compraram o cobiçado aparelho na altura em que passava uma telenovela chamada “A escrava Isaura”. Da historia não me lembro, mas recordo que se juntava um grupo significativo de velhotas na salinha de jantar depois do jantar, para ver as desventuras da pobre ancila. Sofriam a bom sofrer e gritavam apaixonadamente conselhos sábios “num bás…olha qu’ele ‘stá lá à tua espera! Ai a coitadica que bai enganada. Bem simpre és… ora biste? Eu bem to dixe, eu bem t’abisei!”. E choravam baba e ranho que limpavam ao sempre presente lencinho das mãos, e contorciam-se de dor pela infeliz escrava.
Quando todos os problemas da pobre Isaura se resolveram e a história terminou, a actriz que dava vida à desgraçada moca apareceu a protagonizar uma das novela seguintes, em que a história a colocava em situação mais favorável no caminho do personagem protagonizado pelo actor que tão vilmente a torturara na novela anterior. Foi a confusão geral. Algumas velhotas não compreendiam como podia ela agora dar-se tão serenamente com o vilão. Berraram-lhe furiosamente que não tinha juízo nenhum, que era bem feito que chorasse agora, que era uma puta sem vergonha… as técnicas usadas nas filmagens também não ajudavam muito. As cenas em que eram recordados factos passados e em que aparentemente apareciam vivos aqueles que tinham morrido e juntos os que se tinham separado não cabiam no entendimento telúrico das anciãs. E no seu rosto incrédulo viam-se o franzir da perplexidade e do espanto. “Então el ‘inda estaba ali concho que nem um corno! E a coitadica a chorar por el”. Aquilo era tudo uma galdrumada! A medida que os actores foram dando vida a diferentes personagens o interesse pelas historias foi esmorecendo.

6 Comments:

Blogger JG said...

Obrigado, Rosário. por gostar do meu Século Prodigioso. Chamei assim ao blogue porque acho que o século XX foi um século maravilhoso no campo das artes. O meu critério é dar a conhecer os artistas que não andam na boca do mundo e, que a meu ver, merecem ser conhecidos. Já tinha andado a rondar o seu blogue. Só não tinha deixado comentário. Vejo que "você", tu, tá bem?, vejo que tu tb és artista. Já andei a espiolhar os teus quadros. As fotos estão numa dimensão um pouco pequenas para os poder ver bem. As tuas crónicas são deliciosas, como estas que agora publicas. Um dia destes roubo-te um dos teus escritos e dou-o à estampa no meu outro blogue, o da Sabedoria. Se não te importares. Uma beijoka

5:52 PM  
Blogger Rosario Andrade said...

Ola ig,
Obrigada pelo amavel comentario. Tambem leio o blog da sabedoria, muito bom. Sera um prazer se usares (tu esta optimo) escritos meus.
Cumprimentos

9:17 AM  
Blogger frog said...

Texto delicioso ainda mais que os "cajados" da Páscoa...Realmente a nostalgia mora no coração dos Carçoneiros... By the way.. inda bubi muitas laranjadas no café do ti alberto.
Um abraçico

2:16 PM  
Blogger Rosario Andrade said...

Caro frog,
Há mutas mais cronicas donde estas bieram... dedicadas ao ti Alberto, ao Piroca, a Sra das Gracas, aos Judeus, aos Cabroes, a Pascoa, as alheiras, ós salpicoes, etc... vai aparecendo, tu berás!...

3:29 PM  
Blogger frog said...

Aúlas estão??? cas quero ler...

4:51 PM  
Blogger Rosario Andrade said...

Bá... um cachico de pacencia... ja esta na forja uma prá amanha dedicada a festa de S. Roque...
Abracicos

5:20 PM  

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