Thursday, August 11, 2005

Carção

A aldeia é uma entre tantas outras, num ponto remoto de Trás-os-Montes, plantada pelo acaso nos ombros anosos das montanhas, longe de tudo, à distância quase do pensamento. É talvez impossível compreender as razões da fixação de um povoado naquele local exacto. Não se trata de uma área particularmente fértil mas conhecendo a região é impossível encontrar uma outra muito diferente. A aridez do solo e a rudeza do clima são acentuadas pela ausência de um curso de água nas proximidades e pela inexistência de floresta. O rio Maçãs, afluente do Sabor, serpenteia impávido por entre os montes a vários quilómetros da aldeia.
Uma colina no centro sustenta a igreja e a partir daí, espalham-se em todas as direcções, especialmente no sentido do poente, as casas de cerca de oito centenas de habitantes.
Na altura em que nasci a maioria das habitações apresentava as características da construção tradicional, feitas de pedra e de madeira, cimentadas com uma mistura de argila, palha e pêlos de animais e cobertas com telhados de xisto. Normalmente eram constituídas por um rés-do-chão onde se situava o alojamento dos animais, a adega e um local para arrecadar a produção agrícola. Por cima, para aproveitar o calor gerado pelos animais e pela fermentação do estrume por eles produzido, localizavam-se a área habitacional. Uma cozinha, sempre com a incontornável lareira, muitas vezes sem mesmo uma chaminé, para facilitar a cura do fumeiro, constituía na maior parte dos casos a primeira divisão. Daí, um corredor levava ao reduzido número de quartos que albergava a sempre numerosa família. O interior das habitações era sempre muito escuro, as divisões possuíam janelas muito pequenas para conservar o calor gerado pela lareira no Inverno e para impedir que a ardência do Verão nelas entrasse.
Movimentando-nos para a periferia, começavam a aparecer casas modernas, pintadas de cores garridas, a anunciar um novo status, quem sabe uma barreira mental para expugnar as lembranças de um passado de miséria. Lenta mas insidiosamente, muitas das casas originais foram demolidas e substituídas por edifícios pretensiosamente disformes, anfractos, incaracterísticos.
Do cimo da torre da igreja, o sino chamava às Avé Marias, à Missa de Domingo, anunciava as desgraças, os casamentos, os baptizados e os funerais com uma melodia específica para cada acontecimento. Um relógio de ponteiros robustos, dividia pacientemente o tempo e sacudia os sinos de meia em meia hora com um vigor arrebatado. Não creio, no entanto, que essa divisão artificial tenha tido algum dia um significado infenso. A vida e o ritmo das pessoas eram determinados pela vontade imperiosa da terra, pelas estações, pelo sol e pela amplitude dos dias. As horas tinham muito pouco significado, mas os sinos ouviam-se do termo (nome geral dado aos montes adjacentes onde se situavam as terras de cultivo, os pastos, as oliveiras), serviam de elo imaginário com o aconchego do lar e contribuíam para salientar a altura do sol e justificar a fome se as badaladas se aproximavam das doze.

3 Comments:

Blogger frog said...

Óh Rosário Andrade!!! paredes revestidas com pelos de animais!!! só se o burro se encosta-sse à parede quando estava fresca... Nada disso.. era barro, palha e ráfia para dar consistência.

2:54 PM  
Blogger Rosario Andrade said...

Ola, frog!
Sim, rafia faz bastante mais sentido! (embora com a miseria que por aquelas bandas grassava, tudo servisse!...). Desconfio mesmo que se usassem outros materiais menos usuais. Mas vou aprofundar a questao... obrigada pela dica.
Cumprimentos

3:27 PM  
Blogger Rodrigo said...

oi miga, cá estaremos então prontos para trocar algumas palavras. Leitor já fiquei, fã... já era!
Rodrigo

11:51 PM  

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